[CAMINHOS DA LITERATURA | 1] “Balada da Praia dos Cães” de José Cardoso Pires

PELOS CAMINHOS DA LITERATURA | Crónica Literária de Ivo Rocha da Silva

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“BALADA DA PRAIA DOS CÃES” de José Cardoso Pires

1982 | Romance Policial

Edição da Publicações Dom Quixote em 1999 (18º Edição)

Confesso que quando peguei no livro pela primeira vez, há mais de uma década, desisti da leitura a meio. É que um romance policial onde se conhecem os criminosos à partida perdia todo o interesse para um fã incondicional de Agatha Christie e Arthur Conan Doyle. Ficou na prateleira durante anos, tirei-o de lá há uns meses. As opções não eram muitas e decidi dar uma nova oportunidade a esta “balada”. Uma década é muito tempo e a minha surpresa foi genuína. O texto é brilhante e o autor apresenta um estilo único. Trata-se, digamos, de um relato inigualável. José Cardoso Pires nasceu em Outubro de 1925 na aldeia de São João do Peso, em Vila de Rei. Somos oriundos, portanto, do mesmo distrito (Castelo Branco). Frequentou o Liceu Camões, onde foi aluno de grandes personalidades como Rómulo de Carvalho. É um autor cujo género literário se afigura difícil de definir. De cronista a contista, essencialmente romancista, foi associado ao movimento neo-realista que se desenvolveu em Portugal no período da Velha Senhora pela oposição ao regime. “O Delfim” é uma das suas obras de maior relevo, abordando a realidade marcelista dos anos sessenta em Portugal. Agraciado com o título de Comendador da Ordem da Liberdade e com a Grã-cruz da Ordem de Mérito, é, reconhecidamente, um dos maiores escritores portugueses do século XX.

Nesta “balada”, Cardoso Pires apresenta-nos um chefe da brigada de homicídios, Elias Santana, vulgo “Covas”, e dedica-se à brilhante dissertação de um crime, galardoada com o Grande Prémio de Romance e Novela da A.P.E. (Associação Portuguesa de Escritores). O outrora major Luís Dantas Castro (fora expulso do exercito e preso no Forte da Graça por participação num golpe militar abortado) está no centro dos acontecimentos. O texto indica-nos que a história, vivida em 1960, é relatada mais tarde, em meados dos anos 80, com verdadeiro conhecimento de causa. A alusão ao cartaz da TAP, com a frase “PORTUGAL, Europe’s best kept secret”, e o seu duplo sentido (o segredo mais bem guardado da Europa, que se refere ao isolamento e à ditadura) demostram bem o espírito de José Cardoso Pires. O desenvolvimento da investigação é relatado na primeira pessoa e não há subterfúgios para fugir à realidade. As expressões empregadas no romance são de uma crueza fascinante. Cardoso Pires não procurou palavras bonitas ou expressões politicamente correctas. É um texto distinto, repleto de sentimentos. O Chefe Covas é um homem solitário, que vive na companhia do lagarto Lizardo. A jovem suspeita Mena é uma tentação aos seus olhos. O desenrolar da história e a consequente investigação, sob a alçada da Judiciária mas com a PIDE à espreita, revela os costumes de um país reprimido pelas tochas do autoritarismo. Em jeito de nota final, Cardoso Pires revela a existência do relato real que o inspirou a escrever esta “balada”. Este é, por estas razões e outras que ficam por mencionar, um romance de leitura obrigatória.

Página 161: “(…)Que frases obscenas? (…) Curta para aqui, curta para ali, responde a galinheira ainda em mais sumido. E, o agente: Curta? Diga puta, senhora. Os autos querem-se precisos.” Assim escreveu Cardoso Pires. E a bem da verdade se diga que a precisão dos seus textos ficará na história.

Ivo Rocha da Silva | Outubro 2013

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